CURIOSIDADE

Rio Grande do Sul lidera a importação de pelo de porco mesmo sendo gigante da suinocultura

Modelo de produção brasileiro não permite que matéria-prima tenha as características necessárias à indústria de transformação

Rio Grande do Sul lidera a importação de pelo de porco mesmo sendo gigante da suinocultura

O Rio Grande do Sul ocupa o posto de terceiro maior produtor de suínos do Brasil, mas lidera um ranking comercial inusitado: é o maior comprador de pelo de porco do exterior.

Em 2025, os gaúchos foram responsáveis por 64,7% de todo o volume desse material importado pelo país.

O motivo desse movimento não está nas granjas, mas na força da indústria de transformação local, que utiliza a “cerda suína” como matéria-prima essencial para a fabricação de pincéis e trinchas.

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Diferente do que se imagina, o pelo de porco tem propriedades técnicas únicas, como a capacidade de reter e distribuir tintas de forma uniforme em superfícies imobiliárias e artísticas.

Por concentrar as maiores fábricas desse segmento no país, o Rio Grande do Sul tornou-se o principal destino dessa carga, revelando um elo estratégico entre a suinocultura global e o setor de construção civil.

A grande dúvida do produtor é: por que importar se temos milhões de suínos no estado? A resposta está na eficiência da nossa produção de carne.

O modelo brasileiro é focado em ciclos rápidos, com abates de animais jovens para garantir uma carne macia e de qualidade. Como resultado, esses suínos não têm tempo de desenvolver pelos firmes, longos e resistentes — características essenciais para a indústria de pincéis.

Para as fábricas, o material mais valorizado é aquele que mantém o chamado “pé do pelo”, uma base mais grossa que afina até a ponta, permitindo o acabamento perfeito na pintura. Como o rebanho nacional é selecionado geneticamente para pele fina e alta conversão alimentar, a cerda industrial acaba se tornando uma lacuna que o mercado interno não preenche.

Para suprir essa necessidade, a indústria gaúcha busca a matéria-prima principalmente na China. O mercado chinês já entrega as cerdas padronizadas, separadas e prontas para a linha de montagem, o que reduz custos de processamento nas fábricas brasileiras.

Esse cenário mostra como a suinocultura moderna é uma atividade de aproveitamento total, onde até o que parece ser um resíduo movimenta cifras relevantes no comércio exterior.

Essa curiosidade reforça a importância da indústria de transformação no Rio Grande do Sul. Ao liderar as importações de cerdas, o estado não apenas abastece o mercado interno de ferramentas, mas mostra que o agronegócio tem ramificações que vão muito além do prato do consumidor, alcançando setores da construção civil e das artes através de detalhes técnicos que pouca gente imagina ao olhar para um galpão de suínos.

*Sob supervisão de Victor Faverin